InteligĂȘncia Artificial e a Idolatria do Conhecimento
- David de Bruyn
- 29 de mar.
- 3 min de leitura

Crédito da imagem: Heberth Ventura
Uma das maldiçÔes prometidas pela BĂblia Ă© que nos tornemos semelhantes aos nossos Ădolos. 'Aqueles que os fabricam sĂŁo como eles; o mesmo acontece com todos os que neles confiam.' (Salmo 115:8) A idolatria Ă© formativa; tornamo-nos semelhantes ao que amamos.
Â
Ă medida que as tecnologias de IA devastam o mercado de trabalho, os cristĂŁos fariam bem em ponderar se a revolução da IA Ă©, pelo menos em parte, a maldição prometida pela BĂblia a tornar-se realidade diante dos nossos olhos. O homem fez do conhecimento um Ădolo; o seu Ădolo estĂĄ agora a consumi-lo, e a sua prĂłpria experiĂȘncia de vida estĂĄ a assemelhar-se ao Ădolo do conhecimento que ele criou.
Â
NĂŁo pretendo dizer que qualquer tecnologia de IA em particular seja um Ădolo. SĂŁo todas simplesmente ferramentas, e algumas sĂŁo extremamente valiosas.
Â
Mas hå muitos anos, séculos, na verdade o homem ocidental tem procurado o conhecimento como um fim em si mesmo. Os racionalistas acreditavam que o conhecimento lógico conduziria à verdade. Os empiristas acreditavam que o conhecimento era poder e que, quanto mais conhecimento se tivesse sobre o mundo, mais poder se ganharia sobre ele. O conhecimento foi separado da sabedoria. O conhecimento tornou-se uma recolha de factos: como se factos neutros e isentos de valores estivessem simplesmente espalhados pelo universo, à espera de serem recolhidos.
Â
Isto ocorreu a par de uma apostasia consciente. Os escritores, filĂłsofos, cientistas, mĂșsicos e polĂticos da Europa depositaram a sua fĂ© na razĂŁo humana e na recolha de factos, e começaram a descartar Deus e a Sua Palavra como a chave para interpretar todos os factos do universo.
Â
Do ponto de vista das condiçÔes materiais dos seres humanos, tiveram um enorme sucesso. A revolução cientĂfica, a Revolução Industrial, a era das mĂĄquinas e a revolução digital trouxeram melhorias Ă s condiçÔes fĂsicas do ser humano que eram inimaginĂĄveis nos sĂ©culos passados. Do ponto de vista da valorização dos seres humanos propriamente ditos, foi um desastre catastrĂłfico: mais seres humanos foram mortos em guerras, crimes e abortos do que em todos os sĂ©culos anteriores juntos. A nossa recolha de factos permitiu-nos cuidar e confortar o corpo humano como nunca antes, enquanto esquecĂamos o significado e a importĂąncia do ser humano.
Â
A IA representa o prĂłximo passo na busca por uma compreensĂŁo abrangente dos «factos». As nossas tecnologias jĂĄ consumiram (sem compreender) tudo o que foi escrito pelos seres humanos. O nosso sonho de saber «tudo» estĂĄ a tornar-se realidade. Temos agora uma ferramenta que contĂ©m todos os factos disponĂveis e que pode ser aproveitada para obter mais poder.
Â
Mas o «conhecimento» proporcionado pelas ferramentas de IA Ă© exatamente o tipo de conhecimento que o homem idĂłlatra procurava: conhecimento sem Deus. Factos desconexos, isolados e nĂŁo interpretados. Isso significa que Ă© conhecimento sem sabedoria, conhecimento sem perspicĂĄcia e conhecimento sem amor. Os grandes modelos linguĂsticos (LLMs) possuem poderosos algoritmos preditivos que lhes permitem escrever, realizar pesquisas e imitar a cognição dos seres humanos. Isso nĂŁo os torna malignos, nem todo o seu conhecimento falso e inĂștil. Mas os LLMs, devemos lembrar-nos, permanecem sem desejos, sem afetos, sem amor pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo.
Â
Em suma, a IA não pode ser såbia. A sabedoria é o principal, e a sabedoria não é uma medida de quantos factos recolheu. A sabedoria é a própria forma do seu pensamento, o contorno cristão dos seus julgamentos, a lente interpretativa filtrada pelo Céu que utiliza para toda a vida.
E aqui estĂĄ o problema: se tem vindo a perseguir o conhecimento como um fim em si mesmo aquilo a que a Internet inocentemente chama de 'conteĂșdo', haverĂĄ pouca diferença para si entre o que a IA faz e o que um ser humano pode fazer. Em breve, a IA farĂĄ isso melhor. E se o 'conteĂșdo' Ă© o objetivo, entĂŁo a IA Ă© a ferramenta.
Â
Os cristãos devem conhecer a diferença entre conhecimento e sabedoria, entre factos e verdade, entre cognição imitada e verdadeiro discernimento, entre algoritmos preditivos e iluminação espiritual. Os cristãos devem dedicar muito mais tempo à literatura sapiencial de Provérbios e Eclesiastes nos anos que se avizinham, se desejamos conhecer a diferença entre factos e sabedoria.
Â
Aqueles que os criam tornam-se semelhantes a eles. Se a vida se resume a consumir conteĂșdo digital, entĂŁo a sua fonte de alegria Ă© um algoritmo que nĂŁo consegue ver, saborear, tocar, andar, ouvir ou falar de forma real. E em breve, tornar-se-ĂĄ tĂŁo insĂpido, insensĂvel e insensĂvel Ă verdadeira beleza como o seu Ădolo colecionador de factos. Ironicamente, entĂŁo, com todo este conhecimento, tornar-se-ĂĄ um tolo.
David de Bruyn
