O Resguardo de Levítico e o Cuidado de Deus com a mulher: Quando a Tradição Milenar Antecipou a Ciência Médica
- Jair Ferreira de Almeida Filho

- há 23 horas
- 4 min de leitura
Atualizado: há 1 minuto

Ao olhar para o passado com os olhos da modernidade, que muitas vezes nos leva ao erro de assumir, de forma inconsciente, a perspectiva da evolução como verdade, mesmo aqueles que não acreditam na evolução das espécies, por estarem inseridos em uma sociedade de avanços tecnológicos, acabam olhando para o passado com desprezo. Devido ao fato de esse pensamento estar presente em todos os lugares, filmes, séries, redes sociais e até mesmo na educação formal, costumamos classificar rituais antigos como meras superstições ou restrições infundadas. É certo que muitas realmente eram. No entanto, quando nos debruçamos sobre as leis sanitárias do livro bíblico de Levítico, especificamente o capítulo 12, o que encontramos não é atraso, mas uma intuição que preservava a saúde de forma impressionante.
A determinação bíblica do "resguardo" pós-parto, embora envolta em uma linguagem de pureza ritual, funcionava como um verdadeiro escudo biológico para as mulheres em uma época em que o conceito de bactéria sequer existia. O texto sagrado estipula um período rigoroso de resguardo. Após o parto, a mulher deveria passar por um período de isolamento estrito de 7 a 14 dias, seguido de um tempo complementar que totalizava entre 40 e 80 dias de resguardo, dependendo do sexo do recém-nascido.
Para o leitor contemporâneo desatento, a expressão bíblica que classifica a puérpera como "impura" pode soar pejorativa ou discriminatória. Contudo, na prática do Antigo Oriente Próximo, essa classificação teológica operava um verdadeiro milagre social: garantia à mãe o direito absoluto ao descanso e à inviolabilidade do seu corpo, algo que não ocorria entre as sociedades vizinhas de Israel.
A ciência obstétrica moderna não apenas valida essa prática, mas também a prescreve sob o nome de puerpério. Órgãos de autoridade mundial, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), e, no Brasil, a FEBRASGO, delimitam o puerpério clínico padrão em exatos 42 dias — a famosa "quarentena". Esse não é um número aleatório. Trata-se do tempo biológico necessário para que o útero retorne gradualmente ao seu estado anterior, diminuindo de tamanho por meio de contrações e cessando o sangramento dos lóquios.
Do ponto de vista científico, a região onde a placenta esteve aderida assemelha-se a uma extensa ferida aberta. Romper esse período de resguardo nas primeiras semanas significa aumentar consideravelmente o risco de infecções graves, como a endometrite puerperal, uma das principais causas históricas de mortalidade materna.
Além do risco infeccioso, a recomendação de evitar relações sexuais imediatas protege a anatomia feminina contra traumas importantes. O parto vaginal frequentemente resulta em lacerações perineais que demandam semanas para uma cicatrização adequada. Relações sexuais precoces podem comprometer esse processo, favorecendo a abertura de pontos e o surgimento de quadros de dor crônica.
Soma-se a isso o fator hormonal: durante a amamentação, o aumento da prolactina reduz significativamente os níveis de estrogênio da mulher, provocando intensa secura vaginal. Forçar o coito nessas condições não é apenas doloroso; pode causar microfissuras que servem como porta de entrada para diversos patógenos.
Estudos recentes publicados no periódico BMC Women's Health revelam que a restauração completa dos músculos do assoalho pélvico e dos tecidos conjuntivos pode, na realidade, levar até 14 semanas, aproximando-se de maneira impressionante dos 80 dias estipulados em Levítico para o nascimento de meninas.
Portanto, longe de ser um manifesto de opressão patriarcal, o código mosaico ergueu uma barreira cultural que salvou incontáveis vidas de mulheres. Em um mundo sem antibióticos, saneamento básico ou conhecimento microbiológico, a sacralização do descanso e a proibição das relações sexuais imediatas transformaram o resguardo em uma verdadeira lei de sobrevivência. A medicina moderna não inventou o cuidado pós-parto; ela apenas atribuiu nomes técnicos e explicações fisiológicas a uma prática que, segundo a perspectiva bíblica, já era recomendada pelo texto inspirado por Deus.
Por fim, é importante dizer que, em meio a uma sociedade marcada pelo feminismo e por movimentos antipatriarcais entendidos aqui como contrários à figura de autoridade do pai como líder da família, muitas pessoas acusam o Deus da Bíblia e seus ensinamentos de serem machistas. Entretanto, ao observar o cuidado demonstrado nas leis referentes ao puerpério, percebe-se um Deus que, como diriam algumas amigas, "é muito pai de menina", ao preocupar-se com a mulher justamente em um dos momentos mais felizes e, ao mesmo tempo, de maior fragilidade e dor de sua vida. Em síntese, sob essa perspectiva, o Deus judaico-cristão sempre foi aquele que mais valorizou e cuidou das mulheres. Assim, não caia, segundo esse entendimento, no que o autor considera o "conto feminista" da atualidade.
Jair Ferreira
.oOo.
Referências:
Textos Bíblicos utilizados na versão ACF
ANWAR, S. et al. Postpartum maternal health problems and their associated factors: a cross-sectional study. BMC Women’s Health, v. 22, n. 1, p. 1-12, 2022.
BARRETO, N. M. S. et al. Prevalência e fatores associados à dispareunia no pós-parto: uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 42, n. 2, p. 102-109, 2020.
Federação Brasileira Das Associações De Ginecologia E Obstetrícia (FEBRASGO). Manual de Orientação: Assistência ao Puerpério. São Paulo: FEBRASGO, 2023.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). WHO recommendations on maternal and newborn care for a positive postnatal experience. Genebra: World Health Organization, 2002.
SANTOS, L. R.; OLIVEIRA, M. C. Recomendações atuais para a prevenção de infecções puerperais e manejo do assoalho pélvico no pós-parto. Jornal Brasileiro de Obstetrícia e Ginecologia, v. 31, n. 1, p. 45-53, 2024.




Comentários